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PIB evidencia fragilidades do modelo brasileiro

Os números do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre evidenciaram fragilidades do atual ciclo de crescimento. O câmbio valorizado começa a cobrar seu preço em termos de atividade, e a política econômica dá sinais de que é eficiente para estimular o consumo, mas não a produção, como diz o economista-chefe da corretora Convenção, Fernando Montero.

As dúvidas dos analistas estão no que representa a queda na produção industrial no segundo trimestre (de 0,3% em relação ao primeiro e 0,4% na comparação com igual período do ano anterior). O debate que começa a crescer é se ela foi um movimento passageiro (de correção de estoques e influenciado por fatores atípicos como a Copa do Mundo e excesso de feriados em abril) ou representa uma tendência mais estrutural e, portanto, o descompasso entre consumo interno e produção pode se acentuar no médio prazo.

O economista Caio Prates, do grupo de conjuntura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), chama a atenção para o contraste entre o desempenho razoável da demanda doméstica e o pífio resultado do PIB total. Enquanto a demanda interna (consumo das famílias, investimento e o consumo do governo) avançou 3,9% de janeiro a junho em relação ao mesmo período de 2006, o PIB cresceu apenas 2,2% no período.

Para Prates, o ajuste de estoques ajuda a explicar parte dessa disparidade, mas o grande responsável pelo descompasso é sem dúvida o dólar barato. O câmbio na casa de R$ 2,10 a R$ 2,20 explica o fraco aumento das quantidades exportadas de bens e serviços no primeiro semestre, de 4,1%, assim como também justifica o pulo de 13,9% das importações. Isso mostra que o câmbio afeta a produção de parte das empresas exportadoras e induz à substituição de fabricação doméstica por produtos importados, afirma Prates.

O economista-chefe da MCM Consultores Associados, Celso Toledo, concorda com a análise de que o câmbio valorizado é a principal explicação para o descompasso entre produção e consumo, e por isso parte da demanda interna acaba destinada ao consumo de produtos importados.

Toledo acha que há espaço para a demanda crescer a um ritmo superior ao da produção industrial por mais algum tempo. No segundo semestre, por exemplo, o impacto dos juros cadentes, a oferta de crédito ainda elevada e o crescimento da renda devem dar gás ao consumo. A questão, diz ele, é que isso não é sustentável por muito tempo.

Para Montero, um dos problemas é que a política econômica e a conjuntura se mostram “pró-consumo, mas não pró-produção”. O consumo vai bem porque o câmbio está valorizado (o que aumenta o salário em termos reais e reduz a inflação), a comida está barata, o reajuste do salário mínimo foi elevado e os gastos correntes do governo cresceram muito, explica ele.

No lado da produção, o cenário é bem diferente. Montero ressalta que o câmbio valorizado afeta negativamente os investimentos das empresas, que também enfrentam uma carga tributária elevada e juros altos, ainda que declinantes. O setor agrícola, por sua vez, sofre com a falta de renda, devido ao câmbio e aos preços baixos dos produtos, e o governo, apesar de ter aumentado a receita e diminuído o superávit primário em relação ao ano passado, continua a investir muito pouco em infra-estrutura, diz o economista.

O resultado tem sido um desempenho sofrível do lado da oferta, principalmente da indústria. A produção, o investimento e o emprego patinam, num cenário em que o consumo cresce, impulsionado basicamente pela renda, explica ele. O problema é que, para Montero, esse arranjo não parece sustentável. Para garantir um ciclo robusto, é necessário que produção, investimento e emprego cresçam, de modo a gerar mais consumo, realimentando assim a cadeia produtiva. Segundo ele, preços fundamentais como juros, câmbio e salários estão fora do lugar.

Para Carlos Thadeu Gomes Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o câmbio valorizado não deve ser visto mais como um problema, mas como uma realidade. “Estamos numa fase de troca entre o câmbio depreciado para um apreciado e isso irá mudar a estrutura das indústrias e da economia como um todo”, diz o economista. A consequência disso, segundo Gomes Filho, será a maior participação das indústrias de bens não comercializáveis, especialmente os não-duráveis, uma vez que o mercado interno será a mola principal do crescimento.

Edgard Pereira, diretor executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), não acredita numa mudança estrutural, mas alerta para o crescimento cada vez mais heterogêneo causado pelo desempenho ruim dos setores exportadores. A falta de investimento, segundo ele, é agora a maior preocupação.

O economista Sérgio Vale, da MB Associados, aponta um outro problema estrutural do crescimento: é baseado em poucos setores. Segundo ele, nos quatro trimestres terminados em junho deste ano, a indústria extrativa mineral cresceu 8,9%, enquanto a indústria de transformação ficou estável. Nos 12 meses até junho de 2005, a expansão tinha sido mais equilibrada, com avanço de 3,4% na extrativa mineral e de 5,7% na de transformação.

Fonte:
Valor Economico