O Brasil poderá ser uma ilha em meio à crise europeia
O medo da crise global, outra, muito próxima da de 2008, varre o mundo. Nos Estados Unidos da América (EUA), Barack Obama não consegue acordo com o Congresso para aumentar o limite do endividamento do país. Está em perigo o pagamento das aposentadorias, chamadas de pensões, do mês de agosto.
Na Europa, com o efeito dominó, países que estavam com alto déficit fiscal estão caindo um após o outro. Mas e o Brasil, que alguns afirmam – ou afirmavam – ser uma ilha em meio ao caos que se instalou em 2008 e cujos reflexos fazem o sistema bancário da União Europeia e o próprio euro claudicarem? Pois mesmo que boa parte do mercado financeiro veja nas recentes medidas cambiais adotadas pelo Banco Central (BC) – mudança no cálculo da taxa Ptax e redução dos limites de posição vendida em dólar das instituições financeiras para US$ 1 bilhão – o objetivo principal de diminuir a pressão baixista sobre a moeda norte-americana, as ações não deixam de ser um escudo contra a eventual piora da crise europeia que se agravou nesta segunda-feira. Analistas de renome dizem que uma nova crise de liquidez, ainda que não seja o cenário mais provável, poderia causar problemas a muitas instituições que têm posição vendida em dólar elevada.
As recentes medidas do BC vão ao sentido de coibir o excesso de especulação. Ao conter as distorções que ocorriam no fim de cada mês para formação da taxa Ptax e reduzir a exposição cambial dos bancos, o Banco Central também minimiza os riscos cambiais em caso de nova crise de liquidez, segundo explicou um especialista de câmbio.
Antes da piora da crise na Europa, a autoridade monetária voltou a reduzir o limite de posições vendidas em dólar das instituições financeiras que são isentas de compulsório. Agora, caso as posições excedam US$ 1 bilhão ou o patrimônio de referência de nível 1 de cada instituição, haverá recolhimento de 60% de compulsório sobre a diferença que exceder esses valores. Enquanto União Europeia e Fundo Monetário Internacional (FMI) conseguirem contornar os problemas dos países periféricos com pacotes de ajuda e a imposição de medidas de austeridade, a tendência para o real continuará sendo de valorização. É que, mesmo com o IOF elevado, o diferencial de juros interno e externo continuará remunerando o investidor estrangeiro que trará dólares para o Brasil.
Mas, se a crise piorar ainda mais, a tendência será a retirada de dólares do País para cobrir posições no exterior. Tudo indica que tanto o BC quanto o Ministério da Fazenda têm interesse em manter o real apreciado como forma de ajudar no combate à inflação. Porém, e sempre existe um, a especulação conduziu o preço da moeda americana a níveis comprometedores e irrealistas, além do desejado pelas autoridades monetárias. Isso prejudica as exportações.
Enfim, a não ser que ocorra uma megacrise financeira no exterior, a tendência do real continua sendo de apreciação. Nos Estados Unidos, Alexandre Tombini minimizou o risco de bolha no mercado de crédito brasileiro. O presidente do BC foi bem enfático em sua resposta: “O Banco Central age antecipadamente para impedir a formação de bolhas no mercado de crédito.” Que assim seja.
Fonte:
Jornal do Comércio