O Banco Central avaliou nesta quinta-feira (27), por meio do relatório de inflação do segundo trimestre deste ano, que o repasse da alta do dólar para a inflação "tende a ser suavizado pelo ciclo de ajuste da política monetária [aumento dos juros] ora em curso". A instituição subiu os juros em duas oportunidades neste ano, em abril e maio, com altas respectivas de 0,25 ponto percentual e de 0,5 ponto percentual, e sinalizou que este processo terá continuidade nos próximos meses. A taxa básica da economia, que estava em 7,25% ao ano (na mínima histórica), passou para 8% ao ano até o momento.

A inflação é uma alta persistente e generalizada dos preços. Provocada pelo desequilíbrio entre oferta e demanda, pelo excesso de moeda ou por gastos públicos elevados, entre outras causas, ela provoca perda do poder de compra e reduz a eficiência da economia. O dólar alto aumenta a competividade das vendas externas brasileiras, tornando-as mais baratas, e também encarece as importações. Ao mesmo tempo, porém, também pode impulsionar a inflação, uma vez que torna a compra de produtos importados do exterior, assim como insumos, mais caros, e esses preços mais altos são repassados para o mercado interno.

Analistas do mercado analisam que uma alta de R$ 0,10 no preço do dólar poderia ter um impacto de, no máximo, 0,2 ponto no IPCA deste ano. Deste modo, se o dólar estava em cerca de R$ 2 antes do processo de "enxugamento da liquidez" sinalizado pelo Federal Reserve (o BC norte-americano) para os próximos meses - que vem impulsionando para cima o dólar ao redor do mundo, e no Brasil também - e passou, atualmente, para cerca de R$ 2,20, o impacto seria de até 0,4 ponto percentual no IPCA de 2013.

Entretanto, para que isso ocorra, o câmbio teria de permanecer no atual patamar. Caso caia, por exemplo, para R$ 2,10, o impacto seria menor: de até 0,2 ponto. O repasse tende a acontecer, porém, somente de dois a três meses após um novo patamar para o dólar se consolidar, avaliam economistas.

Repasse menor do dólar para os preços
Segundo informou o Banco Central nesta quinta-feira, por meio do relatório de inflação do segundo trimestre deste ano, as evidências apoiam, para a economia brasileira, a "hipótese de diminuição, na última década, do coeficiente de repasse da depreciação cambial para a inflação". A autoridade monetária, porém, não citou números a este respeito.

Analistas preveem alta maior dos juros após disparada do dólar
Antes da alta recente do dólar, que começou a ser vista com maior intensidade em meados do mês de maio, a expectativa dos analistas do mercado era de que o aumento dos juros total previsto para este ano seria de um ponto percentual, passando de 7,25% para 8,25% ao ano no fim de 2013. Após a disparada do câmbio, os economistas dos bancos passaram a prever um ciclo bem maior de alta dos juros: para 9% ao ano no fim de 2013. Atualmente, os juros estão em 8% ao ano.


Inflação de alimentos e serviços
O Banco Central lembrou que o IPCA avançou 6,5% em doze meses até maio deste ano, tendo o grupo de alimentos e bebidas variado 13,52% neste período. Por sua vez, a inflação do setor de serviços atingiu 8,51% em doze meses até maio, acrescentou a instituição. "Em síntese, a inflação de serviços segue em níveis elevados, e observam-se pressões, ainda que decrescentes, no segmento de alimentos e bebidas", informou a autoridade monetária.

Resistências à queda da inflação
O Copom, do Banco Centrral, avaliou ainda que há "resistências importantes" à queda da inflação no Brasil. "Existem mecanismos regulares e quase automáticos de reajuste, de jure e/ou de facto, que contribuem para prolongar, no tempo, pressões inflacionárias observadas no passado", informou a instituição. Entre eles, estão os "mecanismos de indexação de preços, mesmo informais", que reduzem a sensibilidade da inflação às flutuações da demanda.

"De modo geral, ao conter o processo de desinflação da economia, os mecanismos de indexação contribuem para elevar o “ponto de partida” da taxa de inflação em ciclos de moderação econômica e, assim, potencializam os riscos para o cenário inflacionário prospectivo e elevam os custos da desinflação [por meio de um processo maior de alta dos juros]", avaliou o BC.

Mercado de trabalho
A autoridade monetária também avaliou que um "risco importante" para a inflação tem origem no mercado de trabalho - que mostra "estreita margem de ociosidade" (dados do IBGE mostram o desemprego próximo da mínima histórica). "O Comitê reafirma que um aspecto crucial nessas circunstâncias é a possibilidade de o aquecimento no mercado de trabalho levar à concessão de aumentos reais de salários incompatíveis com o crescimento da produtividade, com repercussões negativas sobre a dinâmica da inflação", informou o Banco Central.

A teoria, respaldada pela experiência internacional, de ainda segundo a instituição, "ensina que moderação salarial constitui elemento-chave para a obtenção de um ambiente macroeconômico com estabilidade de preços". "Ainda sobre o mercado de trabalho, o Copom entende que existem riscos decorrentes da presença, na economia brasileira, de mecanismos que favorecem a persistência da inflação, derivados da possibilidade de as negociações salariais atribuírem peso excessivo à inflação passada, em detrimento da inflação futura", acrescentou a autoridade monetária.

O Comitê informou, entretanto, que nota "certo arrefecimento nos riscos decorrentes de mecanismos formais e informais de indexação salarial". "Contribui para isso, entre outros fatores, o fato de que nos próximos anos, o reajuste do salário mínimo será marcadamente menor do que o concedido em 2012", informou o BC, acrescentando que essa mudança "tende a suavizar a dinâmica dos salários de um modo geral, com repercussões sobre os custos de produção, sobretudo em segmentos intensivos em mão de obra".

 

Fonte:
G1