SÃO PAULO - O Copom (Comitê de Política Monetária) estará reunido durante esta terça e quarta-feira (20 e 21) para definir a taxa básica de juros do País, mas as previsões dos analistas consultados pelo Portal InfoMoney utilizam vocabulário bem distinto daquele apresentado dias antes do último encontro da autoridade, realizado no início de junho, quando se especulava alta de 75 ponto-base, como aconteceu, mas sem eliminar a possibilidade de elevação em 1 ponto percentual. 

No início daquele mês, os dados econômicos demonstravam, segundo os participantes do mercado, um momento de "intensa" atividade econômica do País, mas esse cenário, na opinião de alguns, mudou de lá para cá. A curva do mercado de juros futuros, por exemplo, passou a precificar uma alta de apenas 50 pontos-base nesta reunião, o que elevaria a Selic para 10,75% ao ano.

A grande maioria dos analistas e economistas, no entanto, ainda prevê continuidade do ritmo do ciclo de aperto monetário, iniciado em abril, como mostra o relatório Focus, que traz a mediana das estimativas dos analistas, com previsão da Selic em 11% ao ano ao final de julho. No entanto, alguns revisaram projeções para o encontro do dia 1º de setembro, estimando uma taxa de juros básica mais baixa ao final de 2010.

Indicadores domésticos

Esse movimento foi ocasionado por uma série de indicadores econômicos domésticos que trouxeram desaceleração mais forte do que era antecipado. O IPCA (Índice de Preços ao Consumidor - Amplo) de junho, por exemplo, marcou variação nula, enquanto o IPCA-15 de julho, que funciona como uma prévia para o índice do mês cheio, apontou deflação, especialmente por causa da queda dos preços nos alimentos. 

Essa tendência de acomodação também pôde ser observada nos indicadores referentes ao comércio e à indústria. Além disso, o indicador de atividade industrial do Banco Central registrou estabilidade entre abril e maio, "o que estaria ratificando o processo de desaceleração detectado e também esperado em nossa avaliação", menciona Eduardo Velho, economista-chefe da Prosper.

Bradesco revê projeções

O Departamento Econômico do Bradesco foi o único dentre os agentes consultados pela InfoMoney, no entanto, que diminuiu sua projeção para essa reunião em função desses indicadores, apostando em elevação da Selic em 50 pontos-base. A modificação do cenário, segundo Octávio de Barros, Diretor de Pesquisas e Estudos Econômicos da instituição, se deve a duas implicações que as novas informações propiciam: uma revisão para baixo da velocidade de expansão subjacente do PIB e aumento da incerteza sobre o cenário prospectivo. 

Nesse sentido, declarou o Bradesco, em momentos de incerteza, tanto a experiência internacional quando a teoria econômica recomendam que a política monetária caminhe mais devagar, ainda que mantenha a direção. A expectativa do banco é, portanto, de que o Copom siga esse procedimento. 

Expectativa para setembro

Já o Banco Schahin, por exemplo, ainda mantém previsão de Selic em 11% ao ano no final de julho. No entanto, Silvio Campos Neto, economista-chefe do banco, também revisou suas projeções, apostando que a autoridade monetária irá diminuir o ritmo do arrocho com uma alta de 50 pontos-base na reunião subsequente, marcada para 1º de setembro, mencionando, além desse cenário, a deterioração da situação no front internacional.

De 11,75% ao ano, Campos Neto acredita que a Selic ficará em 11,5% ao ano ao final de 2010, com um último aumento de 0,5 ponto percentual em setembro, quando então a autoridade monetária deverá interromper o ciclo de altas iniciado em abril. Também o Bank of America Merrill Lynch aposta em interrupção do movimento de arrocho em setembro, esperando ainda que a reunião desta quarta-feira traga o último aumento da Selic em 75 pontos-base, acreditando assim que o Banco Central irá reconhecer o desaquecimento da atividade doméstica e arrefecimento das pressões inflacionárias. 

A LCA Consultores, embora não tenha mudado seu cenário-base, em que o ciclo contaria com elevação de 300 pontos-base, terminando com uma alta de 0,75 ponto percentual em setembro, alerta que, num contexto de descompressão da inflação doméstica, tanto corrente quanto projetada, e desaceleração da atividade, aumentam as chances de uma ajuste monetário "mais brando do que ora antevemos". 

Desaquecimento não é surpresa

Mas não são todos que veem o cenário desenhado no último mês como definitivo. Marianna Costa, economista da Link, lembra que essa "surpresa" com inflação mais controlada e atividade negativa era amplamente esperada pela maioria dos economistas, tanto por fatores sazonais quando por causa de efeitos estatísticos, com a base de comparação muito forte que foram os três primeiros meses desse ano.

Após esse período de atividade econômica intensa, explica Marianna, "era esperado que houvesse acomodação de atividade, justamente o que aconteceu. Por enquanto, não dá pra dizer que houve desaceleração", completa a economista. A percepção que ainda existe, em sua opinião, é de que o segundo semestre de 2010 continuará a ser um período de atividade forte e de pressões inflacionárias importantes.

O Santander, em análise assinada por Tatiana Pinheiro, também acredita que esse movimento é mais um processo de transição do que de desaceleração e aproveita para mencionar que as condições que sustentam qualquer crescimento econômico são a renda e o crédito, que continuam em expansão. "Assim, indicadores divulgados recentemente não devem mudar o diagnóstico de que o balanço de riscos entre atividade e inflação continua alto", declarou o banco. 

Inflação precisa convergir para centro da meta

Além disso, a estimativa de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) em 7,3% neste ano, conforme a projeção contida no último Relatório de Inflação do Banco Central, exige considerável desaceleração, e por isso a SulAmérica Investimentos entende que "não se faz necessária uma redução no ritmo do aperto monetário", comentando ainda que a desaceleração não deve estar surpreendendo o Banco Central. 

Como a expectativa para a inflação em 2011 ainda não convergiu para a meta de 4,5% estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional, esse é outro sinal de que ainda se faz necessário um maior esforço monetário para garantir que a inflação volte à trajetória estabelecida pelo regime de metas, lembra a SulAmérica. 

Com incertezas, comunicado é destaque

Com todo esse cenário de incertezas, ganham destaque o placar da votação, o comunicado e também a ata da reunião, que só será divulgada na próxima semana. Silvio Campos Neto, do Schahin, espera votação sem unanimidade, com alguns membros optando por elevação de 0,5 ponto percentual, o que indicaria uma alta mais amena em setembro. 

Já a LCA Consultores acredita que são reduzidas as chances de que a autoridade monetária irá realizar alterações significativas no comunicado que acompanha a decisão. O Santander, por sua vez, o classifica como "o evento mais importante da decisão", justamente porque eventuais mudanças no comunicado poderiam indicar que o ritmo está realmente sendo reavaliado. 

Fonte:
Info Money