Impulsionada pelo avanço da carga tributária que provocou uma fuga de empresas da formalidade, a economia informal aparentemente passou incólume pelo agravamento da crise global e cresceu 27,6% no período de dezembro de 2007 a dezembro de 2008. 

É o que revelou nesta quinta-feira (14) o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV) e o Instituto Brasileiro Ética Concorrencial (Etco), ao anunciarem o Índice da Economia Subterrânea, que mede o desenvolvimento de empresas e atividades envolvidas com o mercado informal ou em práticas de sonegação de impostos. Foi o mais forte avanço em um período de dezembro a dezembro da série histórica do índice, que é trimestral e foi iniciada em 2003.

Para calcular o índice foram usados dados sobre informalidade apurados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e informações sobre circulação monetária apuradas pelo Banco Central (BC).

Ao apresentar os resultados do indicador, o pesquisador do Ibre/FGV, Fernando de Holanda Barbosa Filho, comentou que, ao se observar a série histórica, é possível perceber que o indicador da economia subterrânea (informal) caminha "lado a lado" com o avanço da economia formal. "Podemos ver que, quanto maior a atividade e maior o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto), a economia subterrânea também cresce junto. (...) As duas economias (formal e subterrânea) crescem em paralelo. Uma alimenta a outra. A renda ganha na economia formal é gasta na economia subterrânea, e vice-versa", disse, explicando que as elevações do PIB também indicam um crescimento na circulação de moeda no País.

Entretanto, o crescimento da "economia subterrânea" não pode ser explicado somente pela influência benéfica da economia formal. Para o presidente do Etco, André Franco Montoro, muitas empresas ou pequenos empresários também escolheram abandonar o mercado formal como uma forma de não pagar impostos.

Segundo o levantamento, do total da taxa de crescimento de 27,6% do índice, 55,7% da elevação é referente ao aumento da carga tributária, que deve ter subido entre 10% e 11% no ano passado. Na avaliação de Montoro, pode ser atribuída ao governo uma parte da responsabilidade pelo avanço da "economia subterrânea". "O índice mostra claramente que a redução da carga tributária poderia ser uma das medidas públicas que poderiam ser tomadas para incluir (a economia subterrânea) na economia formal", afirmou. De acordo com ele, estudos mostram que, atualmente, a "economia subterrânea" já representa em torno de 20% a 30% do PIB do Brasil.

Sem crise
O fato da crise internacional não ter abalado o avanço da "economia subterrânea" no ano passado também chamou a atenção dos pesquisadores. O pesquisador do Ibre/FGV Samuel Pessoa explicou que o recuo na oferta de crédito foi uma das consequências mais prejudiciais da crise global dentro da economia formal, no último trimestre do ano passado. "Mas quase não afetou a economia subterrânea, porque esta não usa crédito. Podemos dizer que a crise pegou em cheio a economia formal, mas não afetou a economia subterrânea", concluiu.

No último trimestre do ano passado, período em que a crise global se agravou, a "economia subterrânea" cresceu 9,5% ante o trimestre anterior, enquanto o PIB brasileiro caiu 3,6%, na mesma base de comparação.

Porém, os próximos resultados de desempenho da economia subterrânea, que serão referentes ao primeiro trimestre de 2009, podem mostrar um cenário bem menos positivo. O diretor do Ibre/FGV, Luiz Guilherme Schymura, comentou que as notícias sobre piora no mercado de trabalho podem sinalizar menos dinheiro circulando, e com isso, uma diminuição de recursos da população como um todo para gastar ou para investir. Ele lembra que, no último trimestre do ano passado, o cenário de emprego ainda não tinha sido prejudicado pela crise, de forma expressiva. "Mas ainda é muito cedo para fazer estimativas precisas. Vamos aguardar para ver o que vai acontecer", afirmou.

Fonte:
Abril.com